22.5.12

O jornalista e a corrupção

Imagem ilustrativa
Por Dirceu Martins Pio

Atribui-se a Antonio Carlos Magalhães o seguinte comentário: “Existem três tipos de jornalistas: um que quer informação, outro que quer prestígio e um terceiro que quer dinheiro. O que não podemos é embaralhar as cartas. Oferecer dinheiro ao jornalista que quer informação dá uma confusão danada”. A explicação permaneceu como folclore, mas, a seu tempo, não deixou de ser uma ótima orientação para os políticos ajustarem seu relacionamento com a imprensa.
Não se pode negar, evidentemente, que existem jornalistas corruptos ou empresas de comunicação corruptas, mas é bom que todos saibam que a era de Assis Chateaubriand, pelo menos em relação à grande mídia, ficou para trás, foi sepultada. Contam que, uma vez, Chateaubriand, investido de suas funções de gestor e controlador da rede Diários Associados, recebeu em seu gabinete um grupo de jornalistas que pedia-lhe aumento de salário. A resposta que Chateaubriand teria dado foi algo desconcertante: “Vocês têm as páginas do jornal para ganhar dinheiro e vêm aqui me pedir aumento?”
Essa promiscuidade desapareceu. A mídia corrupta põe seus jornalistas para operar seus acertos ilícitos, mas não aceita dividir o resultado com quem recebe salário para produzir “informações”. Sempre que o PT joga suas diatribes contra imprensa erra o alvo. Se o PT fosse um jogador de futebol, diria que mira o gol e manda a bola para as arquibancadas. Talvez seja a hora de explicar algumas coisas ao PT para ver se ele adquire maior precisão de tiro.
Dicas sobre os corruptos

1. O jornalista corrupto fala pouco – ou nunca fala – com o seu corruptor. Quando o jornalista fala muitas vezes com o corrupto passa com isso um atestado de inocência. Se fosse tratar de algo ilícito, falar muitas vezes chamaria muita atenção.
2. Quem acerta os esquemas com o jornalista corrupto costuma ser outro jornalista corrupto, alguém que goza da intimidade do corruptor. Os corruptores costumam seguir a orientação de Antônio Carlos Magalhães: têm medo de embaralhar as cartas.
3. Existem, segundo boatos que correm pelas redações, jornalistas “especializados” em realizar essa intermediação.
4. São raros os casos em que o jornalista corrupto ocupa cargos de comando na grande mídia. Pululam na periferia.
5. Há notícias de que existem grupos organizados de jornalistas corruptos bem distribuídos pelas diferentes mídias. Não é raro notarmos que uma mesma pequena notícia, com a mesma redação, defendendo os mesmos interesses, é publicada aqui, ali e acolá.
6. Nem sempre a missão do jornalista corrupto é publicar; às vezes, é não publicar.
7. Existe jornalista corrupto free-lance e o jornalista corrupto “comprometido”. Este está permanentemente a serviço do poder. Costuma ser funcionário fantasma em alguma instituição pública ou tem outros privilégios, se não para si mesmo, para parentes ou pessoas de sua intimidade.
8. Devem existir empresas de mídia corruptas, mas estas costumam estar ligadas ao poder. Produzem o que chamamos de “informação chapa-branca”.
9. No caso de jornais e revistas, o preço de assinatura não paga o custo – pesado – da produção e distribuição de informações. As mídias impressas, a TV aberta e o rádio vivem da publicidade. A linha editorial costuma ser definida em respeito ao anunciante. Isto quer dizer o seguinte: a menos que se ofereça um oceano de dinheiro a uma determinada mídia, nada vai conseguir alterar o rumo natural das coisas.
Por que eu sei de todas essas coisas? Simples: sou jornalista, incorruptível, há mais de quarenta anos.
[Dirceu Martins Pio é ex-diretor da Agência Estado e da Gazeta Mercantil, atual consultor em comunicação corporativa]
Observatório da imprensa/Batista Santos

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