21.2.16

Os equívocos do PT ao embarcar no presidencialismo de coalizão

Ilustração de Duke (O Tempo)
Leonardo Boff
O Tempo
Durante quatro a cinco décadas houve vigorosa movimentação das bases populares da sociedade discutindo “que Brasil queremos”, diferentemente daquele que herdamos. Ele deveria nascer de baixo para cima e de dentro para fora, democrático, participativo e libertário. Mas consideremos um pouco os antecedentes histórico-sociais para entender por que esse projeto não conseguiu prosperar.
É do conhecimento dos historiadores, mas muito pouco da população, como foi cruenta a nossa história tanto na Colônia e na Independência como no reinado de dom Pedro I, sob a Regência e nos inícios do reinado de dom Pedro II. Sempre vigorou espantoso divórcio entre o poder e a sociedade. O que predominou foi a política de conciliação entre os partidos e as oligarquias, sempre sem o povo. No entanto, pela primeira vez, uma coligação de forças progressistas e populares, hegemonizadas pelo PT, vindo de baixo, chegou ao poder central. Ninguém pode negar o fato de que se conseguiu a inclusão de milhões que sempre foram postos à margem.

Um governo governa sustentado por uma sólida base parlamentar ou assentado no poder social dos movimentos populares organizados. Lula optou pelo Parlamento, no ilusório pressuposto de que seria o atalho mais curto para as reformas que pretendia. Assumiu o presidencialismo de coalizão. Líderes de movimentos sociais foram chamados a ocupar cargos no governo, enfraquecendo, em parte, a força popular.

Lula, mesmo mantendo ligação com os movimentos de onde veio, não via neles o sustentáculo de seu poder, mas sim a coalizão pluriforme de partidos. Se tivesse observado um pouco a história, teria sabido do risco.

A coalizão se faz à base de interesses. A maioria dos parlamentares não representa o povo, mas os interesses dos grupos que lhes financiam as campanhas. Na prática, tratam da defesa dos bens particulares e corporativos. Por isso, em seus oito anos, Lula não conseguiu fazer passar nenhuma reforma. Não havia base.

A “Carta aos Brasileiros”, que, na verdade, era uma carta aos banqueiros, obrigou Lula a alinhar-se aos ditames da macroeconomia mundial e deixou pouco espaço para as políticas sociais. Uma parte da cúpula do PT, metida nessa coalizão, perdeu o contato orgânico com as bases. Nessa economia, o mercado dita as normas e tudo tem seu preço. Assim, parte do PT perdeu o contato orgânico com as bases, contato esse sempre terapêutico contra a corrupção. Boa parte do PT traiu sua bandeira principal, a ética e a transparência. E, o pior, traiu as esperanças de 500 anos do povo.

E nós, que tanta confiança depositávamos no novo, com as milhares de comunidades de base, as pastorais sociais e os grupos emergentes… Elas aprenderam a articular fé e política. A mensagem originária de Jesus de um reino de justiça e de fraternidade apontava de que lado deveríamos estar: dos oprimidos. A política seria uma mediação para alcançar tais bens para todos.

O partido cometeu um equívoco fatal: aceitou, sem mais, a opção de Lula pelo problemático presidencialismo de coalizão. Deixou de se articular com as bases, de formar politicamente seus membros e de suscitar novas lideranças. E aí veio a corrupção do mensalão. O petrolão, pelos números altíssimos da corrupção, desmoralizou parte do PT e das lideranças, atingindo o coração do partido.

O PT deve ao povo uma autocrítica nunca feita integralmente. Para se transformar numa fênix que ressurge das cinzas, deverá voltar às bases e, junto com o povo, reaprender a lição de uma nova democracia participativa, popular e justa, que poderá resgatar a dívida histórica que os milhões de oprimidos ainda esperam desde a Colônia e a escravidão.

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